Há fases nas quais meu humor gira em torno de uma frase do Sartre: “O inferno são os outros”. Estou absurdamente anti-social esses dias e só de ouvir a voz de certas pessoas já me sinto irritada… Porque às vezes parece que todo mundo só abre a boca pra repetir as mesmas coisas: o mesmo discurso furado, as mesmas histórinhas sem graça, os mesmo dramas pessoais… Como discos quebrados que não saem da mesma faixa. E mesmo músicas boas, se ouvidas com muita frequência, acabam enjoando. Falta um som novo, uma entonação diferente, um ritmo que surpreenda…
Neste instante, faz um frio danado e estou com as mãos dormentes. Nem parecem minhas. E, por falar nisso, o cérebro também não parece meu. Está nevando. Uma neve que se parece com o cérebro dos outros. E se acumula como o cérebro dos outros.
Eu mesma tenho me sentido um disco velho quebrado… Sempre reclamando das mesmas coisas, sempre paralisada pelas mesmas frustrações, sempre repetindo os mesmos erros… E me irrita não ser do jeito que eu gostaria, me irrita a falta de força, a lágrima que escorre e a voz que falta…
Mas você sempre foi capaz de compreender todas as coisas que não consigo explicar direito. O problema é que, quanto mais aumenta sua capacidade de me compreender, menor fica a minha de me explicar. Devo ter um defeito congênito qualquer.
Todo o mundo tem defeitos, é claro.
Mas no meu caso o maior defeito é que, com o passar dos anos meu defeito fica cada vez maior. Como se eu estivesse criando uma galinha dentro de mim. A galinha bota ovos, os ovos transformam-se em novas galinhas, essas galinhas tornam a botar ovos. Será que um ser humano consegue continuar vivendo com tantos defeitos dentro de si? Claro que consegue. E esse é o problema, no fim das contas.
E desde pequena minha mãe diz que me refugio nos livros e é verdade. Desde o Gato Sapeca, que li na primeira série, me foi aberto um mundo paralelo, sempre em renovação, com as situações mais surpreendentes e personagens apaixonantes… e no qual tenho o poder de sentir e viver outras vidas, outros pontos de vista, outros dramas, outras alegrias, outros lugares…
Deixe-me falar de cidades.
Não da nossa, onde você e eu nascemos, mas de outras, desconhecidas.
Existem no mundo cidades de todos os tipos, realmente. Cada uma com suas particularidades incompreensíveis, e são elas que me atraem. Por essa razão tenho percorrido diversas cidades nestes últimos anos.
No momento tenho me refugiado na atmosfera surreal dos carneiros de Murakami (livro do qual tirei as citações desse post). E embora os outros dois livros que li dele (Minha querida Sputinik e Norwegian Wood) tenham me empolgado bem mais, Murakami é sempre Murakami: maravilhoso!
A história é bem bizarra, ainda mais se contada assim, com minhas palavras superficiais… Um jovem publicitário recém-separado e sua namorada de orelhas estonteantes, capazes de encantar a qualquer homem e com um poder especial de percepção, saem por Hokkaido em busca de um carneiro especial com uma estrela nas costas, que teria o poder de entrar no corpo das pessoas e, assim, teria formado e chefiado a maior organização do submundo japonês. E em meio a esse universo fantástico, a solidão de cada uma das personagens, a obstinação por algo, a falta de obstinação, o sexo por sexo, a procura de amor… os caminhos pessoais sempre solitários, mas sempre buscando no outro algo que os complete… ou na bebida, nos vícios, num telefonema para um anúncio qualquer de jornal…
- As células se renovam a cada mês, até mesmo neste exato momento em que conversamos – disse ela estendendo a mão delicadamente diante dos meus olhos. – Quase tudo o que você pensa saber a meu respeito são apenas lembranças.
Ela possuía – pelo menos até um mês antes do nosso divórcio – esse jeito cristalino de pensar. Era capaz de apreender a realidade com admirável precisão. Ou seja, o princípio de que, se você fechou uma porta, não deve abri-la de novo, mas que nem por isso você pode deixá-la sempre aberta.
O que sei hoje a respeito dela são apenas lembranças. E as lembranças se desfazem rapidamente, como células decrépitas ou mortas. E eu nem sei com exatidão quantas vezes fizemos sexo.
Faltam umas 50 páginas para o livro terminar e mal posso esperar pelo desfecho. Porque, pelo menos das outras vezes, os finais foram totalmente inesperados e muito bons! Mas a história toda é totalmente envolvente por possuir toda essa carga de sentimentos e contradição que, acredito eu, cada ser humano leva consigo.
- Bem que eu queria ter também alguma coisa para procurar, sabe? – disse o gerente. – Mas, para começo de conversa, não sei nem o que procurar… Meu pai passou a vida inteira em busca de alguma coisa. Aliás, ele continua. Cresci ouvindo-o contar a história de um carneiro branco que lhe apareceu em sonhos. A vida é isso, pensei. Isto é, pensei que a vida tem de ser uma busca contínua.
P.S.: Se o post pareceu dramático demais, a culpa é da maldita TPM (ou de distúrbios bipolares, vai saber!)! =P