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Coisas que o espelho reflete e coisas que o espelho não reflete Abril 16, 2008

Posted by melodyfairy in divagações, feelings, vida confusa.
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* título descaradamente copiado e descontextualizado de um dos capítulos de Caçando Carneiros do Murakami

O grito . Edvard Munch

Saio de casa sem rumo, para não enlouquecer. Já havia descontado demais na comida, nos doces, sempre me auto-flagelo assim. Engulo e nem sinto o gosto, só engulo, engulo minhas mágoas e meus receios… Melhor sair de casa, pegar a bicicleta, seguir para lugar nenhum, para dentro de mim, tentar entender o que eu sinto e o que os outros sentem. Pensar no presente e no futuro, nas escolhas, nas oportunidades, as aproveitadas e as perdidas, nos medos todos que me invadem e me constroem…

Entro em uma loja qualquer e procuro algo que me devolva o que sou, ou ou que imagino ser… Que me devolva a confiança, já perdida há muito tempo em alguma curva sinuosa dessa estrada doida que é a vida. Lembro da infância, das minhas certezas, dos meus planos… da família que eu teria depois dos meus 18 anos, da minha independência, dos poemas que escrevia sem medo que alguém lesse, dos amores inocentes, das páginas coloridas da agenda… Procuro entre brincos, anéis, produtos de beleza, sapatos, perfumes, algo que me devolva tudo aquilo… Porque o hoje é bem diferente do que imaginava… Hoje os planos são incertezas e os poemas ficam guardados dentro de mim, não são nem escritos, por medo de me expor.

Na minha busca desesperada por mim, me deparo com um espelho que não reflete minha imagem… A roupa é a mesma, é o mesmo o tênis recém-estreado, o cabelo desalinhado também é igual… Mas quem é aquela? E quem sou eu? Estranho aquele reflexo e ele me desagrada, porque, bem escondido no fundo de seus olhos, reconheço o meu desespero… O reflexo parece gritar, um grito abafado e grave que ninguém ouve, um grito no vácuo. Sensação estranha de não ser…

E não sendo ando pela rua, quase atropelo um pedestre e dois ciclistas, um deles ri, meu coração dispara (acho que só assim eu sou, no susto). Não sendo, a vida segue, as pessoas seguem, sonhos alheios seguem… Duas japonesas passam por mim, cabelos oxigenados, roupas da moda, unhas assustadoramente enfeitadas… e me pergunto se elas são alguém ou se são também como eu. Porque todos parecem tão certos que as incertezas da minha vida me apavoram… E sigo assim, me procurando…

“Sem criar expectativas…” Março 31, 2008

Posted by melodyfairy in feelings, vida confusa.
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Foi isso que eu disse quando nos demos conta do desejo mútuo de estarmos juntos. Afinal, mais de 3 meses, 1 oceano inteiro, 30 horas de viagem e uma outra pessoa nos separavam (e ainda separam…). Fingi até para mim mesma que não ligava, que as coisas seriam do jeito que eram pra ser… Mas o fato é que sim, tenho pensado bastante em você. Que receber ou não uma mensagem offline sua ou um email me xingando pode mudar totalmente meu humor durante o dia, pode fazer as horas monótonas de trabalho passarem mais depressa ou mais devagar, pode tornar o sol mais quente, a praia mais limpa, a paisagem mais bonita, o vento menos gelado, a chuva menos triste… Só que sou assim mesmo, cheia de “nebulosidades”, e meu instinto natural é o de sempre tentar fugir do que sinto… Complicada demais até mesmo para mim…

Eu sei que ainda é muito cedo para um post desses… Muito cedo, aliás, para todas as expectativas e planos que, mesmo sem que eu quisesse, já se fizeram vivos na minha imaginação… É que sempre que mais preciso, a razão me falta. E é só com o coração que escrevo nesse momento…

“Built a wall around my heart

Never let it fall apart

Strangely I wish secretly

It would fall down while I’m asleep”

Maroon 5 . Nothing lasts forever

Meio vazio, meio cheio Março 17, 2008

Posted by melodyfairy in divagações, feelings, grrr, humor, música, trabalhando, vida confusa.
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Passei o dia inteiro down, me sentindo vazia, vontade de chorar por nada, pensando em problemas cuja solução parece muito além do meu alcance (acho que começo a entender meu último sonho…). O dia estava cinza, a praia estava suja, o trabalho estava chato. As conversas eram as mesmas, as pessoas eram as mesmas, a vida seguia lá fora e a música me deprimiu mais (The Cure sempre me deprime… “I’ve been looking so long at these pictures of you…”). E, pra finalizar, o chefe pediu que eu ficasse até 23h40 (16h do meu dia dentro daquela fábrica).

Cheguei em casa acabada, já pensando em um post-desabafo. Conectei o iPod no PC e dei o play aleatoriamente. Moloko! Quando me dei por mim, já estava dançando bizarramente enquanto preparava meu bentô (marmita, coisa de operário pobre! hahaha), fazendo caretas pra mim mesma no espelho, tropeçando no meu próprio pé e rindo sozinha que nem boba!

“…save me from fading afraid

the tears of a fool on parade

quietly turn into stone

make me flesh and bone…”

Pois é, eu sei, devo ter uns parafusos a menos! E distúrbios bipolares! =P

” Sei que há contas a pagar

e há razões pra terminar

a semana toda ficou para trás

ela tem trabalhado demais

e no seu apartamento

ela se esquecia de tudo

não havia contratempo

ela segurava o seu coração

e largava as roupas pelo chão”

Ludov . Princesa

Saudades… Março 7, 2008

Posted by melodyfairy in Japão, São Paulo, andanças, divagações, feelings, liberdade, vida confusa.
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… das conversas com minha mãe e dos quitutes que ela faz…

… do sol que entra no meio da tarde pela janela da sala, tingindo tudo de laranja…

… dos passeios noturnos pelo bairro com minha cadela…

… dos jogos de nerd ou dos filmes não assistidos nos fins de semana…

… dos ovomaltines até o shopping fechar…

… das noites viradas no ICQ ou no MSN…

… da energia da arquibancada laranja do Morumbi…

… de Ludov ao vivo…

… de ir ao mercado e à quitanda…

… de andar da Liberdade à Sé de manhãzinha para pegar o ônibus para a facul…

… de pão de queijo e mate com abacaxi…

… de jantar no shopping e ir a pé até a aula de Inglês…

… de aulas do departamento de História…

… de alívio pós-entrega de projetos…

… de conversas durante o almoço na cantina…

… dos estúdios 1 e 2…

… de visitas de campo…

… de dias de truco nas horas de almoço…

… das corridas no parque perto de casa…

… das corridas no CEPE…

… de Mupy nas feirinhas de domingo da Liba…

… de visitas de outros Estados para mudar a rotina…

… de Clarice no TUSP…

… de andar sem destino pela Paulista…

… da Livraria Cultura do Conjunto Nacional…

… dos sebos do centro…

… de salsa com pessoas especiais…

… de rock com pessoas especiais…

… de DJ club com pessoas especiais…

… de Black Dog com pessoas especiais…

… de pilequezinho ao som de RHCP em São Roque…

… de noite das meninas fofocando…

… de filmes de terror em S. André…

… da Fundação Japão…

… do Sincinato…

… do Itaú Cultural…

… do MAM…

… de piquenique no Ibira…

… de coreografia dos BSB…

… de showcase do Five…

… de teatrinhos do colégio…

… do metrô Armênia…

… de aulas de arte do Mosaner…

… do bosque da Federal e das flores que caiam das árvores e enfeitavam o caminho…

… de ficar sentado no chão no final da rampa…

… de jogar futebol o dia inteiro…

… de comprar besteiras no Furacão…

… de matar aula pra ir no cinema…

… de Limite Vertical e chuva, muita chuva…

… de jogo do Brasil e Malhação na Copa…

… de Kuki…

… de festas nos apatos alheios…

… de piquenique no parque e ventania…

… de tapas na bunda no café da manhã…

… de Pinky e Cérebro e Tico e Teco…

… da Lucy Liu no aeroporto e do saquê negado no avião…

… de torta na cara com merengue…

… de lamen do Asuka…

… de Centro Cultural Vergueiro…

… de Novo Mundo no sábado de manhã…

… de Itupeva…

… de futebol na tv nos domingos…

… de começo do ano no Guarujá…

… de Morungaba…

… de chuva torrencial no Hopi Hari…

… da minha cachorra deitando no chão toda vez que eu chegava em casa, esperando carinho…

… de fazer bolos e muffins…

… do ohayô e combanwa do meu odi todos os dias…

… das bananas que roubavamos da janela dele…

… do papai noel que vinha todo Natal…

… de votar para os meus pais, ainda na época das cédulas de papel…

… das balinhas de chocolate e mel da obá…

… da outra obá me ensinando a quebrar ovo e brincando no quintal comigo…

… de balinhas pan e sequilhos…

… de tatu-bola…

… do cheiro da casa do meu outro odi…

… dos fogos de artifício na varanda…

… e de tantas, tantas outras coisas…

Me bateu um saudosismo hoje (nem deu pra reparar né?) enquanto tirava as peças da linha, sentia meu pé latejar e meu dedo sangrava… Lembrei da sensação de estar na sala de casa (no Brasil) numa tarde de primavera ou verão… Da luz do sol entrando pela janela, aquecendo a pele, expondo a poeira fina que paira no ar… Minha mãe provavelmente sentada no sofá fazendo tricô ou origami, conversando comigo e assistindo tv…

Respirei fundo, e era como estar respirando naquela atmosfera e não na fábrica gelada e suja. E milhões de cenas começaram a surgir na minha memória e fui sentindo-as uma a uma, relembrando-as, revivendo-as… Foi mágico e bom. Mas junto, uma melancoliazinha e a vontade de ter tudo aquilo de volta… E, pra variar, o questionamento sobre as escolhas e a incerteza dos próximos passos…

Ter vindo ao Japão pela primeira vez foi uma experiência maravilhosa e única mas, ao mesmo tempo, uma espécie de perdição. Porque se “home is where your heart is”, acho que sempre terei pelo menos dois lares e desejarei estar nos dois ao mesmo tempo. Se ao menos fossem lugares mais próximos! =P Mas a vida é complicada assim e eu sou mais complicada ainda!

E é melhor eu ir dormir porque amanhã, apesar de ser sábado (estou ficando tão louca que pra mim amanhã era sexta de novo o_O), vai ser um dia duro!

Sobre discos quebrados e carneiros Fevereiro 9, 2008

Posted by melodyfairy in Japão, divagações, feelings, grrr, humor, literatura, vida confusa.
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Há fases nas quais meu humor gira em torno de uma frase do Sartre: “O inferno são os outros”. Estou absurdamente anti-social esses dias e só de ouvir a voz de certas pessoas já me sinto irritada… Porque às vezes parece que todo mundo só abre a boca pra repetir as mesmas coisas: o mesmo discurso furado, as mesmas histórinhas sem graça, os mesmo dramas pessoais… Como discos quebrados que não saem da mesma faixa. E mesmo músicas boas, se ouvidas com muita frequência, acabam enjoando. Falta um som novo, uma entonação diferente, um ritmo que surpreenda…

Neste instante, faz um frio danado e estou com as mãos dormentes. Nem parecem minhas. E, por falar nisso, o cérebro também não parece meu. Está nevando. Uma neve que se parece com o cérebro dos outros. E se acumula como o cérebro dos outros.

Eu mesma tenho me sentido um disco velho quebrado… Sempre reclamando das mesmas coisas, sempre paralisada pelas mesmas frustrações, sempre repetindo os mesmos erros… E me irrita não ser do jeito que eu gostaria, me irrita a falta de força, a lágrima que escorre e a voz que falta…

Mas você sempre foi capaz de compreender todas as coisas que não consigo explicar direito. O problema é que, quanto mais aumenta sua capacidade de me compreender, menor fica a minha de me explicar. Devo ter um defeito congênito qualquer.

Todo o mundo tem defeitos, é claro.

Mas no meu caso o maior defeito é que, com o passar dos anos meu defeito fica cada vez maior. Como se eu estivesse criando uma galinha dentro de mim. A galinha bota ovos, os ovos transformam-se em novas galinhas, essas galinhas tornam a botar ovos. Será que um ser humano consegue continuar vivendo com tantos defeitos dentro de si? Claro que consegue. E esse é o problema, no fim das contas.

E desde pequena minha mãe diz que me refugio nos livros e é verdade. Desde o Gato Sapeca, que li na primeira série, me foi aberto um mundo paralelo, sempre em renovação, com as situações mais surpreendentes e personagens apaixonantes… e no qual tenho o poder de sentir e viver outras vidas, outros pontos de vista, outros dramas, outras alegrias, outros lugares…

Deixe-me falar de cidades.

Não da nossa, onde você e eu nascemos, mas de outras, desconhecidas.

Existem no mundo cidades de todos os tipos, realmente. Cada uma com suas particularidades incompreensíveis, e são elas que me atraem. Por essa razão tenho percorrido diversas cidades nestes últimos anos.

No momento tenho me refugiado na atmosfera surreal dos carneiros de Murakami (livro do qual tirei as citações desse post). E embora os outros dois livros que li dele (Minha querida Sputinik e Norwegian Wood) tenham me empolgado bem mais, Murakami é sempre Murakami: maravilhoso!

A história é bem bizarra, ainda mais se contada assim, com minhas palavras superficiais… Um jovem publicitário recém-separado e sua namorada de orelhas estonteantes, capazes de encantar a qualquer homem e com um poder especial de percepção, saem por Hokkaido em busca de um carneiro especial com uma estrela nas costas, que teria o poder de entrar no corpo das pessoas e, assim, teria formado e chefiado a maior organização do submundo japonês. E em meio a esse universo fantástico, a solidão de cada uma das personagens, a obstinação por algo, a falta de obstinação, o sexo por sexo, a procura de amor… os caminhos pessoais sempre solitários, mas sempre buscando no outro algo que os complete… ou na bebida, nos vícios, num telefonema para um anúncio qualquer de jornal…

- As células se renovam a cada mês, até mesmo neste exato momento em que conversamos – disse ela estendendo a mão delicadamente diante dos meus olhos. – Quase tudo o que você pensa saber a meu respeito são apenas lembranças.

Ela possuía – pelo menos até um mês antes do nosso divórcio – esse jeito cristalino de pensar. Era capaz de apreender a realidade com admirável precisão. Ou seja, o princípio de que, se você fechou uma porta, não deve abri-la de novo, mas que nem por isso você pode deixá-la sempre aberta.

O que sei hoje a respeito dela são apenas lembranças. E as lembranças se desfazem rapidamente, como células decrépitas ou mortas. E eu nem sei com exatidão quantas vezes fizemos sexo.

Faltam umas 50 páginas para o livro terminar e mal posso esperar pelo desfecho. Porque, pelo menos das outras vezes, os finais foram totalmente inesperados e muito bons! Mas a história toda é totalmente envolvente por possuir toda essa carga de sentimentos e contradição que, acredito eu, cada ser humano leva consigo.

- Bem que eu queria ter também alguma coisa para procurar, sabe? – disse o gerente. – Mas, para começo de conversa, não sei nem o que procurar… Meu pai passou a vida inteira em busca de alguma coisa. Aliás, ele continua. Cresci ouvindo-o contar a história de um carneiro branco que lhe apareceu em sonhos. A vida é isso, pensei. Isto é, pensei que a vida tem de ser uma busca contínua.

P.S.: Se o post pareceu dramático demais, a culpa é da maldita TPM (ou de distúrbios bipolares, vai saber!)! =P