Levantei ontem um pouco depois das 6h30, ainda dormindo… Dia meio nublado de temperatura agradável. O mukai passou bem cedo, umas 7h15. Muito cansado pela semana desgastante, mas sempre simpático, conversando sobre política japonesa, a crise de alimentos, a previsão do tempo… Os assuntos de sempre no caminho de sempre: passando pelos arroizais, cheios de água nessas últimas semanas, pelas casinhas de telhados coloridos que parecem sempre tão impessoais, pelos combinis e supermercados, todos tão iguais… E depois da curva, o rio com um parque às suas margens, os velhinhos já montando o material de gateball (ou seja lá que jogo eles sempre jogam), as nuvens e as montanhas ao fundo, tão plásticas, parecendo uma pintura… E depois da ponte, o mar, revoltoso, ondas quebrando nos blocos de concreto, mesmo azul acinzentado do céu…
Quando cheguei, a fábrica ainda estava fechada… Só o odisan da pepa (o mesmo dos mochis desse post) já estava lá, como sempre, no seu carrinho compacto. Sentei nos bancos improvisados com latas de tinta e tábuas de madeira, totalmente silenciosos naquela hora da manhã… Os raios de sol que em mim chegavam já anunciavam um dia bom. O odisan dirigiu o carro até perto de onde eu estava, desceu e sentou do meu lado. Me mostrou o joelho, machucado, não entendi porquê… Tinha saído mais cedo no dia anterior e ido no hospital por causa disso. Perguntei se ele estava bem e ele abriu aquele sorriso gostoso, assentiu com a cabeça e voltou para o carro.
Uns 10 minutos depois, o M. chegou e abriu a fábrica. Bati o cartão de ponto, 7h51, coloquei a marmita na geladeira… Aos poucos as pessoas foram chegando, a fábrica foi ganhando vida. O trabalho começou, calmo como todo o sábado. Só que dessa vez, o M. levou o filhinho, tímido, se escondendo toda vez que eu tentava me aproximar com o olhar. Ficou lá um tempinho e depois foi pra casa da esposa do shachô que tem duas meninas… Mais tarde vieram as 3 crianças e ficaram brincando do lado de fora!
Meio-dia, almocei rapidinho, peguei o Llosa e a garrafinha de água no armário, liguei o ipod e fui para praia… Sentei na mesma muretinha de sempre, vendo o mar, os jipes andando pela areia, as pessoas pescando… Abri o livro e mergulhei novamente no mundo cão do Colégio Militar Leôncio Prado, nos conflitos entre os estudantes, nas brincadeiras cruéis, nas diferentes histórias de vida, nos amores adolescentes… Meu momento de paz e viagem durante o dia…
Voltei para fábrica a tempo de umas conversinhas rápidas, de ver alguns sorrisos em rostos cansados, vidas cansadas da busca por dinheiro… Mais um pouco de trabalho, depois as crianças correndo de um lado para o outro, tomando sucos das maquininhas, o pessoal rindo, até o shachô de bom humor, o calor acolhedor do sol, as casinhas, uma azul e outra rosa, do outro lado da rua… Vontade enorme de guardar isso pra sempre, essa sensação de estar “em casa”, de fazer parte daquilo tudo…
O expediente acabou cedo, 5h20. Fazia tempo que não saia esse horário! Não ligaram para o meu mukai e acabei pegando carona com o japonês simpático que sempre tenta conversar, fazendo mímica, dizendo algumas palavras em Inglês, outras em Português! Sempre que pedem pra ele me dar carona, ele sai correndo na minha frente dizendo “Katazuke!!”, porque o carro dele está sempre bagunçado.. Joga tudo para trás e abre a porta, liga o dvd e puxa logo algum assunto… Acho que ele falou que ia estar trânsito porque era dia de jogo do Júbilo. Falei pra ele que estava indo embora e ele perguntou até que dia eu trabalhava, “samishi ne”… Eu disse que não estava valendo a pena em termos de dinheiro e ele concordou. Depois, pra descontrair, me mostrou o restaurante que ia levar a esposa no dia, tentou me dizer que tipo de comida serviam mas não entendi nada!
Cheguei em casa e sai com meu pai para procurar uma bolsa para a câmera que comprei (mais um item dos 101 riscado, só falta aprender a usar!). Pegamos a bicicleta, música no ouvido, voz desafinada assustando os japoneses como sempre! Vento bom embaraçando os cabelos, sensação de liberdade que adoro…
E assim se foi mais um dia… Mais um dos poucos que restam…
Estou ansiosíssima por voltar mas uma parte do meu coração sempre fica presa aqui… Achei que dessa vez seria diferente, que sem amigos por aqui para aproveitar acabaria enjoando fácil, mas ontem percebi que sempre são criados laços e que é sempre doloroso desfazê-los… Mas é a vida, né, algumas portas precisam ser fechadas para que outras se abram. =)